No verão anterior à minha entrada na faculdade, estava em pânico. Trepava pelas paredes só de pensar que ia ser praxada. "E o que é que me vão fazer?", "E vai ser pior que a tropa", "E vão-me pôr a fazer figurinhas em frente à faculdade toda", "E vão-me enfiar a cabeça num balde de merda", enfim. Tudo me passava pela cabeça. Coisas terríveis, principalmente. Sempre que ouvia falar de praxe na comunicação social era porque algo de muito mau tinha acontecido: humilhações que sabe Deus ou pior, pessoas com lesões sérias. Por isso, na noite anterior ao primeiro dia de aulas, quase não dormi. Na altura, não sabia como as coisas se processavam, por isso não fazia ideia de que se podia renunciar à praxe. Pensava que era uma tradição pela qual todos os caloiros passavam. E estava para lá de assustada.
Lembro-me do primeiro dia de aulas como se fosse ontem. Foi um dia muito marcante, o início de um novo ciclo. Quando cheguei à faculdade, fui logo para a aula; basicamente, fugi de tudo o que fosse pessoa vestida de preto. No fim da aula, vinte gatos pingados saem do pavilhão a tremer que nem varas verdes, todos a pensar o mesmo: "Pronto, é desta. Será que ao menos me deixam ligar à minha mãe só para lhe dizer que gosto muito dela e para usar o meu nome numa fundação que acabe com as praxes para todo o sempre?". À nossa espera, à porta do pavilhão, estavam dez raparigas, trajadas, todas com uma cara mais assustadora que a da gaja do "Exorcista" ou lá o que é (não vejo filmes de terror, corrijam-se se estiver errada). Perguntaram-nos se queríamos ser praxados. Se queríamos. Uma novidade para mim. Em vez de me puxaram pelos cabelos e arrastaram para um qualquer canto da faculdade, perguntaram-me se queria. A medo, disse que sim. Ao meu lado, alguns disseram que sim, outros disseram que não estavam interessados. E foram à sua vida, na paz do Senhor. Assim que aceitámos ser praxados é que começou o tormento. "Não me olhe nos olhos, caloira", "Tem de conhecer-me pelos sapatos, caloira", "Caloiro não ri", "Caloiro não fala". Eu, rapariga educada, habituada a olhar para as pessoas quando falo com elas, sofri horrores nos primeiros dias de praxe. Não poder olhar para os olhos de uma pessoa e falar com ela como se fosse estrábica, fez-me mais confusão do que estava à espera. E os gritos? Mãezinha, os gritos. De vez em quando esganiçavam-se de tal maneira que eu até dava um pulinho. E claro, porque é da Praxe, os batons, o verniz. A minha cara cheia de letras, um bigode, uma monocelha. E os meus pés cheios de "x". Caí no erro de ir para a praxe de sandálias (porquê, Senhor?!), o que me deu direito a cinco minutos na banheira a esfregar os vestígios da praxe.
Lembro-me de chorar durante toda a viagem de regresso a casa. Queria desistir daquilo, não estava para ouvir gritos, não queria passar mais horas com a cabeça para baixo, estava farta. Mas não desisti. Fui a todas as praxes marcadas pela minha turma e se umas foram piores (mais de esforço físico, flexões para aqui, pulos de galo para ali), outras foram muito boas. Construí uma relação com as minhas colegas de praxe, a quem hoje chamo amigas (das boas), que sei que não teria sido possível se não tivéssemos passado por tudo aquilo juntas. Sofremos muito? Sim. Concordo com tudo o que me fizeram? Não, e também por isso fiz questão de, enquanto praxante, não mandar fazer nada que não gostasse que me fizessem a mim- Havia dias em que me apetecia mandar a praxe toda para o raio que a parta, claro. Mas outros houve em que foi muito, muito divertido. Cantei pela Baixa, pelo Parque das Nações, pelo Campo Grande. Aprendi imensos jogos que não conhecia e, acima de tudo, ri-me. Ri-me muito durante o tempo em que fui praxada. No final do ano, tive a recompensa merecida: o Enterro do Caloiro, o prazer de vestir o Traje Académico e o Traçar da Capa. Foi dos dias mais marcantes que já tive. Lembro-me de chorar que nem uma Madalena, do orgulho que foi vestir o Traje e ter a minha Madrinha a traçar-me a capa. Não consigo expressar a felicidade que é, para mim, usar aquela capa. Sei que para muita gente é ridículo, não faz qualquer sentido, mas a mim deixa-me muito feliz.
E é por isso que me custou ouvir muitas das coisas que ouvi no ano em que fui eu a praxar uma turma de caloiros. Chamaram-me besta, estúpida, fascista e nazi. Os últimos dois custaram-me particularmente; terem-me comparado a nazis foi, sem dúvida, a pior ofensa que me fizeram em toda a minha vida. O que é que faz de mim nazi? O que é que faz de mim comparável a seres repugnáveis que apoiavam a morte de minorias, de deficientes, de homossexuais? Porque mando uns gritos de vez em quando? Porque ponho caloiros a fazer flexões? Isso torna-me igual aos nazis? A praxe é para quem quer e qualquer caloiro pode desistir, seja em que momento da praxe for. Pode abandonar a praxe a meio, se quiser. Ninguém, mas mesmo ninguém, o obriga a estar ali. No ano em que praxei, muitos caloiros desistiram e não foi por isso que foram maltratados, humilhados ou desprezados. Claro que tenho uma relação bastante melhor com quem foi praxado do que com quem não foi, mas isso é super natural. Passámos muito mais tempo juntos. Hoje tenho amigas na minha turma de caloiros. Sim, imaginem. Pessoas que foram praxadas por mim são minhas amigas. Divertimo-nos imenso, rimos muito juntas. Temos uma relação excelente, mesmo depois de eu ter gritado tantas e tantas vezes com elas, mesmo depois de eu as ter mandado fazer mais de mil flexões ao longo do ano, mesmo depois de eu ter sido uma das piores praxantes da minha turma. Mesmo assim, elas gostam de mim. E eu gosto imenso delas.
Respeito toda a gente que odeia a praxe, que acha estúpido, ridículo, sem sentido. Respeito. E se eu respeito, porque é que quem não acha piada à praxe não me respeita a mim? Porque é que me atiram à cara que sou má, que ando a fazer os meus pais gastar dinheiro, que devia andar a estudar em vez de andar na praxe? Nunca descurei os estudos pela praxe, nunca. Se fiz gastar dinheiro aos meus pais? Pois, fiz. Mas se eles próprios não gostassem desta tradição, não tinham pago nem um cêntimo do meu Traje, nem financiado as minhas idas à praxe. Felizmente, gostam quase mais da praxe do que eu.
Tenho consciência de que a minha realidade, tanto como de caloira, como de praxante, é diferente da de muitas faculdades. E sei que existem praxantes muitíssimo estúpidos, convivi com eles, inclusivé. Há pessoas más na praxe. Mas não nos ponham a todos no mesmo saco. Não admitam que somos más pessoas só porque andamos nas praxes. Nem todos apoiamos praxes com teor humilhante ou sexual. Não pensem que somos bestas só porque até nos divertimos a mandar uns berros. Não pensem que obrigamos as pessoas a andar ali, de cabeça baixa, a encher ou a ouvir. Por isso, se se cruzarem com alguma praxe, antes de abanaram a cabeça e disparatar com quem está trajado, tentem perceber o que se passa. Perguntem, antes de acusar. Já estive dos dois lados e, por isso, sinto-me no direito de dar o meu testemunho. Gostei de ser praxada e gostei de praxar. E isso não faz de mim uma pessoa horrível.
Ah, já agora. A todos os caloiros, um bom início de ano e uma excelente praxe! E se abusarem de vocês ou se não gostarem, já sabem: ninguém vos obriga a nada e ninguém tem de fazer-vos sentirem-se humilhados. A partir do momento em que se sentem assim e em que não se estão a divertir, a praxe já deixou de o ser. Pelo menos, para mim.

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