Andar de comboio pode ter o seu quê de engraçado. Vemos pessoas a cair, a andar que nem bêbedas nos corredores das carruagens, a deixarem parte do casaco ou da mala do lado de fora da porta fechada, a serem quase esmagadas pelas portas porque decidem entrar quando aquilo está expressamente a gritar "NÃO ENTRE AGORA!", ou seja, está a fazer um "PIIIII" irritante, vemos os picas com o nariz quase a ser esmagado (sim, porque eles só saem da zona das portas depois do "PIIIII", quando as ditas se começam a fechar, só assim para o passageiro ver quem é o rei lá do sítio!) e ouvimos muita coisa... A maior parte estúpida, diga-se. Ouve-se muita conversa nos transportes públicos; para descobrir a vida de alguém chega a ser melhor do que o Facebook! E depois ouvem-se conversas como a que presenciei hoje de manhã. Dois jovens, literalmente, aos berros, a conversar sobre "Os Maias" e o "Memorial do Convento". E diziam assim:
Jovem 1: Epa, tu leste "Os Maias"?
Jovem 2: Achas que li aquilo? Porra por favor!
J1: Eu li para aí umas 60/70 páginas, mas não consegui mais do que isso.
J2: A sério?! Eu li a primeira página e fiquei por ali, que aquilo é uma seca de todo o tamanho. Então o gajo para descrever que dois gajos estão numa richa vai descrever primeiro o tapete, o candeeiro, os botões de punho, os cortinados... E só passados cinco páginas é que percebes que eles estão a richar! Porra não há paciência para aquela porcaria.
J1: Pois. Eu gravei a série por isso sabia a história, não precisei de ler o livro. E o que achas do "Memorial do Convento"?
J2: Pffff, esse então nem lhe peguei! Que grandessíssima chachada! Nem sabe pontuar uma frase! E depois é só descrição: se ele para descrever uma coisinha de nada leva três páginas imagina para descrever a viagem da pedra grande e sei lá mais o quê.
Bem, por onde começar? Primeiro convém referir que faço parte daquele grupo de pessoas que realmente leu estas duas obras obrigatórias. Apesar de ter sido uma imposição (para quem até gosta de ter boa nota), depressa se tornou algo agradável. Adorei "Os Maias" de uma forma inexplicável. Foi uma história que me cativou verdadeiramente e agradeço por esta obra fazer parte do programa do ensino secundário. Também gostei muito, mas não tanto, do "Memorial do Convento".
Mas percebo perfeitamente que haja imensa gente que não tenha gostado destes dois livros. Primeiro, por serem impostos, que é coisa com que muitas pessoas não se dão bem, e, depois, porque sim, principalmente "Os Maias", envolvem muitos momentos descritivos. Mas isso não faz da obra uma "porcaria". Não se ter paciência para ler é uma coisa, criticar só porque sim é outra. Então o rapaz afirma que o livro é uma "porcaria" porque leu a primeira página e não gostou? Porque é muito descritivo? Não. Ele ouve todos os alunos dizerem o mesmo, então nem se dá ao trabalho de pegar nele, porque Deus nos livre de gostar de uma "chachada" daquelas.
E o mesmo serve para o "Memorial do Convento". O meu sentimento pelo José Saramago é um misto de amor e ódio: não concordo com grande parte do que ele defendia, mas o homem fascina-me. E fascina-me desde que li uma obra dele. Embora não simpatizasse muito com a pessoa, comecei a admirar o escritor. E embora ele tenha um problemita com pontuação (que nem é problema, é estilo literário), ao longo da obra vamo-nos habituando.
Eu aceito que as pessoas não gostem disto ou daquilo (que remédio, ainda me sujeitava a levar dois pares de tabefes ou coisa que o valha). É perfeitamente normal. Mas o que para mim é inaceitável é criticar-se isto ou aquilo sem conhecimento de causa, só porque A disse, ou B achou, quando as pessoas que o fazem nem sequer se dão ao trabalho de investigar, de procurar, de perceber; limitam-se a falar mal.
Conclusão: embora estivesse com urticárias pelo corpo todo, só me apetecia rir na cara daquele rapaz e rapariga. Eu e mais de metade do comboio. A senhora que ia à minha frente até tirou os phones dos ouvidos para escutar tais sábios ensinamentos e só não se desmanchou em risota porque se controlou. Enfim, é assim nos Comboios de Portugal.
P.S.: Chamar gajo a uma figura Eça de Queiroz... Ai mãe...
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