Enquanto andei desaparecida, chegou a data da minha segunda oportunidade: o exame de condução ficou marcado para o dia 14 de junho. Lá fui eu largar mais uns euros em aulas de preparação, depois dos malditos 250 euros que voaram da minha conta "por dá cá aquela tralha".
12 de junho. Primeira aula de preparação. Um terror. Entre quase atropelar uma pessoa e quase arrancar o espelho de um carro estacionado, pode dizer-se que a aula correu extremamente mal. Vá, já não conduzia há um mês, tenho desculpa!
13 de junho. Segunda aula de preparação. "Owl, estás de volta a ti! Vai assim para o exame e passas!". E eu a pensar: "Pois claro. Se chumbar nunca mais ponho os meus lindos pés nestes pedais nem as mãos neste volante". A confiança estava a zero e o medo de chumbar (outra vez) começou a crescer exponencialmente.
14 de junho. O pânico. Não dormi nada de jeito, as minhas olheiras ganharam proporções gigantescas (a sério, parecia que tinha levado dois socos em cada olho) e as minhas mãos começavam a anunciar princípios de ataques epiléticos sucessivos. A família toda em casa, a desejar boa sorte, a dizer que ia correr tudo bem e eu com uma vontade de me agarrar à sanita mais próxima e mandar cá para fora o pequeno-almoço que não consegui tomar. Lá foi o meu querido pai pôr-me à escola, ao meio-dia em ponto, e lá ficámos à espera do instrutor. O senhor nunca mais se decidia a chegar, por isso fomos conversando. Sobre o exame, claro. Disse-lhe que ia comigo uma senhora e que ela não costumava ter aulas com o meu instrutor. Falámos sobre as coitadas das pessoas que têm de ir a exame com um carro ao qual não estão habituadas. Eu dizia que para quem está numa pilha de nervos, chegar ao dia do exame e ter de pegar noutro carro não ajuda em nada. É sempre diferente e é só mais um fator de nervosismo. Ele concordava comigo. Da secretaria da escola chamavam o meu nome. Lá fui eu, pensando que me iam avisar que o meu instrutor estava atrasado. Pois, estava muito enganada. Perguntaram-se se já sabia que não ia com o meu instrutor, nem com o meu carro, pois claro. Não sei que cara fiz, sei que devo ter ficado branca que nem uma parede. Estava eu a acabar de apontar todas as desvantagens de levar um carro diferente para o exame e o meu pai, condutor há 30 anos, a confirmar tudo o que eu dizia, quando BINGO!, e pronto. Fui ter com o meu pai, já com a lágrima no olho a dizer que ia chumbar (sim, sou um bocado maricas). Ele lá me disse para ter calma, que se chumbasse não era o fim do mundo (eram só menos 250 euros, outra vez) e que ia conseguir. A senhora que ia comigo estava ainda mais nervosa do que eu. Pediu-me para ser eu a levar o carro e eu pus-me logo no lugar do condutor. Pus o carro a trabalhar, ia arrancar, mas aquela porcaria não mexia. O meu pai a olhar atentamente e eu cada vez mais estúpida, sem perceber o porquê daquilo não me obedecer. Lá se vira o senhor instrutor "Se calhar convém baixares o travão de mão...". Boa, Owl, vais para exame e nem sabes pôr um carro a mexer. Já oiço 250 moedinhas a saltar da tua conta! O exame era às 15h20, por isso, até aí, eu e a outra fofinha (que rapidamente descobri ser passada da marmita) íamos trocando entre o banco de trás e o banco do condutor. Desde logo, percebi que ela não estava muito bem preparada. Fez a rotunda do Relógio e os poucos quilómetros seguintes até um semáforo em primeira, alegando em sua defesa que o carro (coitado) não pediu a segunda (eu estava no carro e fiquei com imensa pena dele; temi que explodisse de frustração). A tudo o que o instrutor dizia ela respondia torto, pensando que sabia bem mais que ele. Eu já estava nervosa e não queria mais problemas, por isso simplesmente mantive-me caladinha, na paz do Senhor, mesmo quando ela apontava todos os meus erros enquanto eu conduzia : "ela não devia ter feito x?", "ela não devia ter ligado os médios?", "ela não devia ter acelerado?". E você, não devia estar calada?! Um amor de pessoa. Mas enfim, o meu problema era outro. Eu queria mesmo era passar no exame. Às 15h15 chegamos ao centro de exames e ela sugere (exige) ir em primeiro. Dado tudo o que se tinha passado e embora eu goste sempre de ir em primeiro (a ideia de ficar a assistir e de passar mais tempo à espera deixa-me frustrada), decidi evitar conflitos. Deixei-a ir em primeiro, caso a senhora não se lembrasse de, depois, me culpar por ter chumbado, caso eu não tivesse consentido (nunca fiando). Entrámos para o carro. Eu já conhecia o examinador e sabia que ele era um porreiro. Nunca o vi sorrir, mas sempre gostei da "pinta" do senhor. Desejou-nos boa sorte e exigiu que cumpríssemos o Código na íntegra; um fofo. A senhora lá arranca, tudo muito bem. Saímos do parque da escola, tudo ótimo. O examinador ordena que mude de direção à esquerda. Ela encosta-se demasiado a um carro estacionado, obrigando-o a intervir, mas deixa-a continuar. Ela posiciona-se para mudar de direção à esquerda, atravessando-se completamente na estrada: o pânico. O senhor diz-lhe que lhe dará outra oportunidade, mas que o que ela fizera até ali era suficiente para chumbá-la (no primeiro exame, chumbei numa mudança de direção à esquerda, ah pois!). A senhora lá segue com o seu popó e para num cruzamento, para ceder passagem. Vê que pode seguir e arranca em segunda. O carro vai abaixo. Põe o carro a trabalhar, mas não consegue arrancar. O senhor examinador tem um acesso de raiva e manda-a tirar os pés dos pedais e as mãos do volante. Leva o carro até a um sítio onde pode pará-lo e, depois de o fazer, manda-a trocar de lugar com o instrutor. O que é que eu faria nesta situação? Tirava o cinto, abria a porta e dizia adeus ao dinheiro (enquanto chorava, obviamente). Mas a minha cara colega não é dessas. Começa a chorar desalmadamente e pede clemência, pede ao senhor pelos filhos dele, pergunta-lhe se ele nunca errou e grita "ERRAR É HUMANO". O examinador, meio atordoado, repete a ordem. Ela não vai de modas: agarra-se ao homem ao chorar. Ele passa-se. Arranca o cinto e sai da porta para fora. Lá dentro, ela grita que nem uma maluca (literalmente). E tudo isto comigo, no banco de trás, caladinha que nem um rato e com as pernas a tremer que nem varas verdes. Pois é, amiga, obrigadinha por não aumentares o meu nível de ansiedade! O homem agora está com um acesso de raiva e quem vai levar por tabela sou eu! O instrutor sai do carro e dirige-se para o lugar do condutor, mas e tirar a moça de lá? Mission Impossible 5. Chamem o Tom Cruise, por favor! Cinco longos minutos de lágrimas, desespero, nervos em franja e eu com o exame por fazer. Lá se decide a sair do carro e seguimos viagem. Mas claro, toda aquela condução de alto nível traria consequências: no carro, surgem umas luzes estranhas, que nem o instrutor sabe de onde ou porque aparecem. Tudo para ajudar o meu sistema nervoso! Chega-se à conclusão que são os fumos (whatever) e que a solução é ir para a autoestrada e, em terceira, puxar ao máximo pelo carro. Obrigadinha pelo contributo, senhor examinador, mas eu preciso do carro AGORA, se for possível! Por milagre (obrigada a todos os santinhos), a luz desaparece, por isso não há problema. "Pode vir para o lugar do condutor". Ok, chegou a minha vez de brilhar (ou de me espalhar ao comprido, vá - reparem que os meus níveis de autoconfiança estão sempre lá no alto!). Faço pisca para a direita e siga a viagem! "Desculpe, vamos para a esquerda." Esqueci-me que se calhar quem manda ainda não sou eu! Lá pedi desculpa ao senhor e, finalmente, vamos embora despachar esta porcaria. Uma inversão do sentido de marcha, um estacionamento paralelo ao passeio e um caminho razoável em termos de dificuldade. Muitos amarelos, nem um peão nas passadeiras (é tudo meu!) e quase nenhum sítio em que tivesse de fazer ponto de embraiagem. As minhas pernas tremiam como nunca. Cada vez que levantava o pé da embraiagem quase tinha de agarrar a perna para ela estar quieta. A certa altura, chego a uma rua na qual está parado um autocarro. Se ele sinalizar, avisando que vai reiniciar a marcha, temos de ceder passagem. O senhor não tinha o pisca aceso. "É melhor passar? Ou paro? Se calhar passo... Vou passar". Não, eu não pensei isto; eu disse-o, em voz alta. O examinador, com certeza, pensou que eu não batia com elas todas. Chegamos ao centro de exames, paro o carro à cão (a mando do sr. examinador) e ele prepara-se para falar. "Está aprovada". FESTAAAA!!! Não. Agarrar-me ao volante a chorar pareceu-me a decisão mais acertada. É impossível explicar o alívio que senti naquele momento, o peso enorme que me saiu de cima dos ombros. Saber que não tenho de gastar mais dinheiro, saber que estou completamente despachada, não ter de depender de boleias... Oh, a felicidade!
E é assim, tenho a carta, minto, a guia, esse tão desejado pedaço de papel que me dá autorização para, finalmente, buzinar à vontade a todos aqueles a quem não pude enquanto estava nas aulas! Yupi! Assim que chego à escola de condução, o meu pai obriga-me a trazer o carro para casa. Ainda não tinha a guia, porque não levei dinheiro com medo que desse azar (na primeira vez, fui armada em esperta com trinta euros para o centro de exames e com trinta euros voltei para casa), mas o senhor insistia que eu tinha de levar o carro porque tinha de levar o carro. "Pai, eu acabei de tirar a carta. Queres que fique já sem ela?". Mas não havia volta a dar: disse-me que não havia polícia no caminho para casa e que podia levar o carro. Ora, conduzir um Yaris e conduzir um Passat tem as suas diferenças. Para começar, só via dois pedais. Parece que fazer o acelerador igual aos outros dois pedais é muito "à menina", então toca de pôr uma barra de plástico altamente confundível com o próprio chão do carro. Mas tudo bem, senhores da Volkswagen, eu cá me arranjo! Lá consegui pôr aquilo a mexer. Quando tive de travar é que foi engraçado. É que eu, coitadinha, habituada ao meu querido Yaris, pisei o travão com a mesma convicção com que pisava o travão do carro da escola. Grande erro. Não fui de testa ao volante porque me consegui controlar, mas estive quase para lhe dar uma cabeçada, assim só naquela. Parece que basta só dar um cheirinho que ele pára logo (uma máquina), o senhor meu pai é que se esqueceu de me avisar. Estacionei de marcha-atrás e tudo! Tendo em conta que aquilo me parecia do tamanho de um camião, foi um grande feito. Confesso que passei a tarde à janela a admirar as minhas elevadíssimas capacidades estacionativas.
Isto tudo para quê? Para me gabar desta nova conquista, do alcance desse símbolo de independência: a carta de condução. Já me fizeram saber que nunca mais pego no Passat, conduzo o velhadas e é se quero. Obrigada, mãe!
Vá, não se acanhem. Podem dar-me os parabéns! (se tiverem conseguido ler o texto todo, o que eu duvido)
E é assim, tenho a carta, minto, a guia, esse tão desejado pedaço de papel que me dá autorização para, finalmente, buzinar à vontade a todos aqueles a quem não pude enquanto estava nas aulas! Yupi! Assim que chego à escola de condução, o meu pai obriga-me a trazer o carro para casa. Ainda não tinha a guia, porque não levei dinheiro com medo que desse azar (na primeira vez, fui armada em esperta com trinta euros para o centro de exames e com trinta euros voltei para casa), mas o senhor insistia que eu tinha de levar o carro porque tinha de levar o carro. "Pai, eu acabei de tirar a carta. Queres que fique já sem ela?". Mas não havia volta a dar: disse-me que não havia polícia no caminho para casa e que podia levar o carro. Ora, conduzir um Yaris e conduzir um Passat tem as suas diferenças. Para começar, só via dois pedais. Parece que fazer o acelerador igual aos outros dois pedais é muito "à menina", então toca de pôr uma barra de plástico altamente confundível com o próprio chão do carro. Mas tudo bem, senhores da Volkswagen, eu cá me arranjo! Lá consegui pôr aquilo a mexer. Quando tive de travar é que foi engraçado. É que eu, coitadinha, habituada ao meu querido Yaris, pisei o travão com a mesma convicção com que pisava o travão do carro da escola. Grande erro. Não fui de testa ao volante porque me consegui controlar, mas estive quase para lhe dar uma cabeçada, assim só naquela. Parece que basta só dar um cheirinho que ele pára logo (uma máquina), o senhor meu pai é que se esqueceu de me avisar. Estacionei de marcha-atrás e tudo! Tendo em conta que aquilo me parecia do tamanho de um camião, foi um grande feito. Confesso que passei a tarde à janela a admirar as minhas elevadíssimas capacidades estacionativas.
Isto tudo para quê? Para me gabar desta nova conquista, do alcance desse símbolo de independência: a carta de condução. Já me fizeram saber que nunca mais pego no Passat, conduzo o velhadas e é se quero. Obrigada, mãe!
Vá, não se acanhem. Podem dar-me os parabéns! (se tiverem conseguido ler o texto todo, o que eu duvido)
2 comentários:
vou a exame de condução amanhã, primeira vez... estou tão nervosa... só a minha mãe é que sabe (porque alguém me tem de levar até a escola de condução)... espero que corra bem e que a minha colega não seja como a tua se não vou ficar ainda mais nervosa... Espero que corra bem
RUTE
Espero que tenha corrido bem, Rute!
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