31 de agosto de 2013

Mãe

Realmente, o tempo ensina-nos muita coisa. Há três anos, eu e a minha mãe não nos dávamos bem. Nada bem, na verdade. Discutíamos praticamente todos os dias. Quando eu comecei a namorar, pela primeira vez, ela teve o maior desgosto da sua vida e todos os dias falava mal do meu namorado, criticava-o, humilhava-o. Cada palavra dela magoava-me profundamente. Eu amava-o muito e ele nunca me tinha feito mal, muito menos a ela. Éramos melhores amigos e apaixonámo-nos. Ele sempre me tratou bem e, uma semana depois de termos acabado, posso dizer que tenho orgulho no tempo que passei com ele, em tudo o que fizemos e no casal que fomos. As coisas nem sempre funcionam, acontece. Não estamos chateados, não guardamos rancor, simplesmente a vida como ela era perdeu-se e a relação foi morrendo aos poucos. Também faz parte. Não estou deprimida (ainda); estou triste e tenho pena que as coisas não tenham funcionado. Fizémos imensos planos, tínhamos a vida praticamente traçada; só não contámos perder o mais importante: o sentimento. Vou sempre gostar muito dele, mas tenho de seguir em frente, procurar algo que me faça verdadeiramente feliz, algo que esta relação já não fazia. Uma pessoa infeliz não faz outra feliz, por isso nenhum dos dois estava bem.
O meu maior receio era contar à minha mãe. Já imaginava os "eu avisei-te!" ou "entregaste-te a ele e olha o que aconteceu!" ou "é bem feita, sua burra!". Não sabia como dizê-lo, que palavras usar nem em que situação fazê-lo. Não é fácil chegar ao pé da minha mãe, depois de lhe ter feito frente tantas vezes para defender o meu ex-namorado (ok, isto é esquisito...) e a nossa relação, e dizer "olha, afinal tinhas razão, não deu em nada, três anos e meio depois, aconteceu o que tu sempre previste". Não estou em estado depressivo, não choro todas as noites, mas não nego que custe e que seja estranho.
Graças a Deus, existe uma coisa chamada instinto maternal. E, nisso, a minha mãe é doutorada. Eu e ele tínhamos acabado no dia anterior, ninguém sabia. Eu e a minha mãe estávamos a conversar e, já nem sei bem porquê, a conversa chegou ao tema "namorado". 

Mãe: Então, pedes ao teu namorado. Ou já não é namorado?
Eu (atordoada e sem saber o que dizer): Erghh... Porque é que perguntas isso?
Mãe: Nunca mais saíste, tens andado em baixo...
Eu (mas que raio, como é que esta mulher sabe as coisas?): Pois...
Mãe: Não te preocupes! Há muito homem por aí! E quando não houver homens, há mulheres!

Esta foi a reação da minha mãe ao fim do meu namoro. "Avisei-te"? Não. "Toma lá!"? Não. "Segue em frente"? Sim. "Sê feliz"? Sim. De facto, geralmente, quando tememos a reação de alguém e já imaginamos o que vai acontecer, sai sempre tudo ao contrário. E ainda bem que assim foi. Saiu-me um peso de cima, senti-me leve, apoiada. 
Há três anos, dizia que não amava a minha mãe. Hoje, amo-a de todo o coração. A adolescência é mesmo uma fase estúpida; metemos na cabeça que sabemos tudo. Agora, finalmente, percebo a frase que ela tanto me dizia: "um dia vais perceber que eu sou a tua melhor amiga". E é. Melhor amiga e melhor mãe que eu poderia ter. E já fui lamechas pelo ano todo.

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